sábado, 24 de maio de 2014

Beber sem Culpa: Quem não quer?



O consumo de bebidas alcoólicas sempre esteve associado a problemas de saúde. Mesmo sendo o alcoolismo um problema crítico de saúde pública, quando ingerido de forma moderada, o álcool pode se tornar um grande aliado no combate a muitas doenças. Várias pesquisas conduzidas em Centros de Investigações Nacionais e internacionais apontam os benefícios que o consumo moderado de bebidas alcoólicas pode trazer. Doenças cardiovasculares, neurodegenerativas, artrite e asma têm apresentado drásticas reduções de seus riscos, aliado a melhora do quadro de diabetes e também ao aumento dos níveis de HDL (colesterol bom) no sangue.



Mas tenha calma, não precisa parar de ler a reportagem e sair correndo a procura do primeiro bar!
Antes de qualquer coisa é importante definir qual quantidade de álcool classifica o consumo como moderado. Para os homens, isto equivale a ingerir 30 gramas de álcool, já para as mulheres devido às diferenças na capacidade de metaboliza-lo, corresponde à metade desta dose. Assim, três latinhas de cerveja, três copos de vinho ou duas doses de bebida destilada, correspondem a cerca de 30 gramas de álcool.
Para que o álcool se torne um importante aliado da saúde, revelando seus benefícios, não basta apenas o seu consumo moderado, é preciso uma mudança no estilo de vida. Para isso, é fundamental a prática de atividades físicas, o controle de peso, adoção de uma dieta alimentar saudável e abandono da prática do tabagismo, dentre outros.

Agora, à luz da ciência, apresentarei algumas vantagens em tomar umas e outras de vez em quando:

Melhoria na Saúde Cardiovacular



Os pesquisadores da atualidade estão chegando ao consenso de que duas ou três doses de bebidas alcoólicas por dia faz muito bem para o sistema circulatório e consequentemente para o coração. A ingestão moderada não só reduz o risco de morte por ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral como também diminui consideravelmente a probabilidade de contrair doenças cardíacas. Além disso, o álcool aumenta significativamente os níveis de HDL (o colesterol bom), que, por sua vez, auxilia na limpeza das artérias entupidas, removendo placas das paredes. O álcool também torna o sangue menos viscoso, reduzindo a probabilidade de coagular e finalmente é antioxidante tornando-se responsável por manter as células jovens.



Redução da depressão e Ansiedade


Durante sete anos, uma pesquisa conduzida na Espanha acompanhou o comportamento de 5,5 mil pessoas quanto a quantidade de vinho que costumeiramente bebiam e se existia algum diagnóstico de depressão. O resultado identificou que o grupo que bebia entre duas a sete taças de vinho por semana exibiu o menor risco de depressão. A suposição dos pesquisadores está na presença de substâncias que protegem o cérebro contra processos inflamatórios envolvidos na depressão, contidas na uva.



Evita a formação dos cálculos biliares


Quem já conviveu com cálculos biliares (acúmulo de cristais na vesícula) sabe o quão doloroso é este processo, mas esses problemas podem ser facilmente contornados pelo uso moderado do álcool, isto porque ele tem a capacidade de aumentar o nível de colesterol bom, repercutindo beneficamente na vesícula não permitindo a formação dos cálculos biliares. Além disso, uma das principais origens dos cálculos é a obesidade, tornando o consumo regular moderado um possível combatente desse problema.



Queimando gorduras e mantendo o peso


Um estudo do Brigham and Women's Hospital Boston, nos Estados Unidos, avaliou mais de 19 mil mulheres durante 13 anos. Nesse período, as voluntárias que não consumiam bebidas alcoólicas foram as que mais apresentaram ganho de peso (em média 2kg). Já aquelas que ingeriam o equivalente a dois copos diários mantiveram-se em seu peso ideal. O estudo concluiu que a bebida mais eficiente para evitar o ganho de peso foi o vinho tinto, seguido pela cerveja, o vinho branco e o licor.




Melhoria da Performance no trabalho



Estudos publicados no American Journal of Epidemiology dão conta de que aqueles que não bebem, ou pararam de beber ou ainda bebem muito, foram ausentes em seus postos de trabalho em cerca de 1,2 vezes a mais quando comparados com aqueles que consomem de forma moderada. Isto pode ser resultado dos efeitos protetores do álcool.


Rapidez de Raciocínio


Paginando a Revista Consciousness and Cognition esta mostrou um estudo que apontou a bebida como estimulante da criatividade. Participaram da pesquisa 20 pessoas sendo que metade deveria assistir um desenho animado, comendo um tira-gosto e bebendo vodca e outra não. Em seguida foram feitas uma séria de perguntas e resultado da pesquisa demonstrou que aqueles que haviam bebido foram até 4 segundos mais rápidos na respostas às perguntas do que os que não consumiram.



Beber junto com o parceiro reduz brigam conjugais


Entrevista a 69 jovens casais heterossexuais, realizada por Psicólogos americanos, investigou a quantidade de bebida consumida, se saiam habitualmente juntos para um bar e o relacionamento conjugal. Os casais considerados os mais felizes, com bom nível de intimidade e menores desentendimentos, foram aqueles que bebiam junto com o parceiro. Além disso, conseguiram desempenho melhor até mesmo do que os abstêmios. Entretanto, é importante observar que estes casais bebiam moderadamente, entre um a três drinks.







E para comemorar as informações aqui apresentadas se desplugue deste computador e vá tomar uma! Não se esqueça: com moderação.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Aquecimento Global e o Mercado de Créditos de Carbono

A humanidade tem sentido na pele os resultados da intervenção danosa do homem sobre a natureza, sobretudo quanto às mudanças climáticas provocadas pela excessiva emissão e concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, gerados pelas indústrias, veículos automotivos, queimadas, dentre outras fontes, que levam ao aquecimento de nosso planeta.
Muitos especialistas têm mostrado resultados assustadores da degradação ambiental causada pela ação antrópica sobre o Planeta, o que levou vários governantes mundiais, em 11 de dezembro de 1997, na cidade japonesa de Quioto, a proporem o estabelecimento do um tratado que leva o nome da cidade. Esse protocolo decreta que os países industrializados devam reduzir, entre 2008 e 2012, as emissões de gases que provocam o efeito estufa, como o carbônico, metano, óxido de nitrogênio e clorofluorcarbono (CFC), em pelo menos 5,2% abaixo dos níveis registrados em 1990, o que equivale a cerca de 714 milhões de toneladas de gases por ano.
A redução na emissão desses gases significa, primariamente, a contenção do crescimento industrial, o que poderá levar à retração das diferentes economias dos países desenvolvidos, motivo pelo qual os Estados Unidos, maior poluidor mundial, não aderiu, até então, apesar de estarem sofrendo intensas pressões internas nesse sentido. Atualmente, 126 países são signatários deste protocolo e já vêm mostrando bons resultados em atingirem suas metas de redução .
Dentre os avanços conseguidos com o protocolo de Quioto, está o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Este instrumento propõe que os países desenvolvidos, caso não consigam ou não desejem cumprir suas metas de redução de emissão de gases, podem comprar dos demais países títulos conhecidos como créditos de carbono. Portanto, o texto do protocolo prevê a criação do primeiro mercado internacional oficial para o comércio de créditos de carbono.
Os créditos de carbono são certificados outorgados às indústrias e às empresas que comprovadamente reduzam a emissão de gases causadores do efeito estufa durante a obtenção de seus produtos.  Cada crédito de carbono pode valer de U$ 3,00 a 40,00 dólares (R$ 8,00 a 104,00 reais), mas, em média, fica entre US$ 15,00 e US$ 20,00 (R$ 39,00 a 52,00 reais).
Quem define o preço de cada crédito de carbono é a característica do projeto executado, ou seja, uma empresa que realiza reflorestamento em um local degradado por suas atividades, capta créditos mais baratos do que aqueles provenientes da instalação de um equipamento de alta tecnologia para reduzir a emissão de gases poluentes. As empresas que mais negociam esses créditos são aquelas instaladas em países desenvolvidos.
A maioria dos países que aderiu ao Protocolo de Quioto já está se preparando para se adequar a suas normas. A iniciativa mais contundente partiu da União Européia, onde um projeto que foi analisado pelo Parlamento Europeu estabeleceu limites para as emissões de gases, independente da entrada em vigor do Protocolo.
O Brasil, a exemplo de outros países, também está preparando uma legislação específica adequada ao Protocolo. Trata-se da chamada Resolução nº. 1 da Comissão Interministerial de Mudança do Clima, que vem sendo concebida com  o objetivo de enquadrar o país no MDL previsto no Protocolo. Além desta resolução, o Brasil previu uma série de programas oficiais relativos às mudanças climáticas, como é o caso do Pró-Carbono e o Pró-Ambiente, inserido em seu Plano Plurianual (PPA) que reúne os principais projetos de longo prazo do país.
Nosso país é responsável por uma parcela mínima da poluição mundial e não tem metas de redução de emissões de gases de efeito estufa, segundo o Protocolo de Quioto, portanto, o MDL é uma excelente oportunidade para reduzir ainda mais nossos níveis de emissões e, além disso, poder captar recursos com a negociação de créditos de carbono com países desenvolvidos estimulando, assim, o desenvolvimento local. Somado a isso, insere, de maneira concreta, o Brasil no contexto da proteção ao meio ambiente.
Algumas das seguintes situações poderão se constituir em obtenção de créditos de carbono, como por exemplo, a substituição da matriz energética de geração de eletricidade de uma empresa, à base de derivados do petróleo, por outra que utilize gás natural; o aproveitamento do gás metano produzidos em aterros sanitários na geração de eletricidade; e até mesmo o reflorestamento de áreas degradadas, uma vez que se considera que a vegetação, no processo fotossintético, absorve gás carbônico da atmosfera, portanto reduzindo sua concentração na na mesma.
Um exemplo prático da inserção do Brasil no mercado de carbono se deu com o projeto desenvolvido pela siderúrgica Mannesmann, sediada na Bahia. Trata-se de uma operação com o International Financial Corporation (braço privado do Banco Mundial) em nome do governo da Holanda, que negociou cerca de cinco milhões de toneladas de carbono equivalente a um preço aproximado de três euros a tonelada. Depois disso, uma outra quantidade menor, cerca de quatro milhões de toneladas de carbono, foi comercializada para a Toyota Tsusho Coporation.
A Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, em seis de dezembro de 2004, lançou o Mercado Brasileiro de Redução de Emissões (MBRE), primeiro mercado a ser implantado em um país em desenvolvimento, que irá negociar ativos que venham a ser gerados por projetos que promovam a redução de emissões de gases causadores do efeito estufa em nosso país.
Até agora tudo parece estar em pleno acordo com as regras do capitalismo, porém há muitas perguntas sem respostas. Quem são os donos, os avalistas e os auditores dos créditos de carbono? Quem será beneficiado pelos créditos? Esse modelo irá beneficiar o meio ambiente e as camadas mais pobres da população ou os empresários e donos do poder político e econômico dos países mais ricos?
É importante deixar claro que o Protocolo de Quioto parece ser mais um acordo de cavalheiros do que um documento contratual com regras rígidas e impositivas. Nele não é prevista nenhuma penalidade aos países, que por ventura, venham a descumprir o referido acordo.

*  Antônio Gilson Gomes Mesquita é Professor Associado do Centro de  Ciências Biológicas e da Natureza da UFAC, Doutor em Genética e melhoramento vegetal. E-mail: mesquitaagg@gmail.com, mesquitaagg@ufac.br.